Artigo do Dr. Henrique

A demência não possui uma causa única. Idade e predisposição genética têm importância, mas saúde cardiovascular, atividade física, alimentação, audição, sono, escolaridade e participação social também influenciam a trajetória cognitiva ao longo da vida.

Isso não significa que seja possível garantir a prevenção da doença de Alzheimer ou de outras demências. Pessoas com hábitos saudáveis também podem desenvolver essas condições. Entretanto, evidências recentes indicam que intervenções estruturadas, atuando simultaneamente sobre diferentes fatores modificáveis, podem contribuir para preservar o desempenho cognitivo.

Em julho de 2026, a Organização Mundial da Saúde publicou a segunda edição de sua diretriz para redução do risco de declínio cognitivo e demência. O documento ampliou as orientações anteriores, incorporando intervenções multidomínio personalizadas e fatores ambientais.

No mesmo período, o estudo LatAm-FINGERS apresentou resultados particularmente relevantes para o Brasil e outros países latino-americanos.

O que significa reduzir o risco de demência?

Reduzir o risco não significa eliminar completamente a possibilidade de desenvolver demência.

Alguns fatores não podem ser modificados, como idade, determinadas variantes genéticas e parte da história familiar. Outros podem ser tratados ou influenciados ao longo da vida:

  • Hipertensão arterial, diabetes e colesterol elevado.
  • Sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool.
  • Perda auditiva, depressão, isolamento social e sono inadequado.
  • Obesidade, alimentação inadequada e baixa atividade cognitiva.
  • Exposição a determinados fatores ambientais.

Esses elementos não devem ser interpretados como culpa individual. Condições financeiras, acesso à saúde, segurança urbana, escolaridade e disponibilidade de alimentos saudáveis também interferem na possibilidade de adotar e manter mudanças.

A diretriz atualizada da OMS enfatiza uma abordagem ao longo de toda a vida, integrada às condições sociais e culturais de cada população. Ela se aplica a adultos sem demência, incluindo pessoas cognitivamente saudáveis e aquelas com comprometimento cognitivo leve.

O que foi o estudo LatAm-FINGERS?

O LatAm-FINGERS foi um ensaio clínico realizado em 11 países da América Latina, incluindo o Brasil. Participaram 1.065 pessoas entre 60 e 77 anos com risco aumentado de declínio cognitivo e desempenho cognitivo abaixo do esperado, mas sem demência estabelecida.

Os participantes foram divididos em dois grupos: uma intervenção estruturada, com acompanhamento e metas, e uma intervenção flexível, baseada principalmente em orientações de saúde.

O programa estruturado trabalhou simultaneamente atividade física, orientação nutricional, estímulo cognitivo, participação social, acompanhamento de fatores cardiovasculares e apoio regular para adesão às mudanças.

Depois de dois anos, ambos os grupos apresentaram melhora nos testes cognitivos. Entretanto, o grupo submetido à intervenção estruturada teve evolução significativamente mais favorável. A melhora média anual no índice cognitivo global foi de 0,31 desvio-padrão no grupo estruturado e de 0,20 no grupo flexível; a diferença entre os grupos foi de 0,11 desvio-padrão por ano.

Isso prova que o programa preveniu demência?

Não. O estudo demonstrou benefício em medidas de desempenho cognitivo durante dois anos. Ele não foi desenhado para comprovar redução da incidência de demência ao longo de décadas.

  • Os participantes possuíam características específicas de risco.
  • Os dois grupos receberam alguma orientação.
  • Repetir testes cognitivos pode produzir um efeito de aprendizagem.
  • Ainda não sabemos por quanto tempo o benefício será mantido.
  • Uma diferença estatística nos testes não necessariamente se traduz, no mesmo período, em mudança perceptível na autonomia diária.

A interpretação adequada é que uma intervenção estruturada e multidomínio apresentou benefício cognitivo mensurável. Não se deve afirmar que ela impede a doença de Alzheimer.

Os resultados também apareceram fora da América Latina?

Sim. O estudo norte-americano US POINTER avaliou 2.111 adultos entre 60 e 79 anos com risco aumentado de declínio cognitivo.

Os dois grupos receberam orientações sobre atividade física, alimentação, estímulo cognitivo, participação social e fatores cardiovasculares. A diferença foi a intensidade: um grupo recebeu metas, reuniões frequentes e acompanhamento estruturado, enquanto o outro seguiu um programa mais flexível.

Depois de dois anos, ambos apresentaram melhora nos testes. O grupo estruturado teve benefício adicional pequeno, porém estatisticamente significativo, na cognição global e na função executiva. A diferença anual na medida cognitiva global foi de 0,029 desvio-padrão. O próprio estudo destacou que ainda é necessário determinar a relevância funcional e a duração desse efeito.

Os resultados do LatAm-FINGERS e do US POINTER reforçam uma mensagem semelhante: oferecer apenas recomendações genéricas pode ser menos eficaz do que organizar metas, acompanhamento e apoio para transformar orientações em hábitos sustentáveis.

Existe uma dieta específica para prevenir Alzheimer?

Não existe um alimento isolado capaz de prevenir demência.

Os programas recentes utilizaram padrões alimentares semelhantes às dietas mediterrânea, DASH ou MIND, que geralmente priorizam verduras, frutas, leguminosas, cereais integrais, peixes, oleaginosas e fontes de gordura insaturada, com menor consumo de ultraprocessados, açúcares e gorduras saturadas.

O benefício potencial provavelmente não depende de um produto específico, mas do padrão alimentar global e de seus efeitos sobre pressão arterial, peso, diabetes, colesterol e saúde vascular.

Suplementos não devem ser utilizados como substitutos de uma alimentação adequada. Deficiências documentadas, como vitamina B12 baixa, precisam ser corrigidas, mas tomar vitaminas indiscriminadamente não garante proteção cognitiva.

Qual atividade física protege o cérebro?

Não existe uma única modalidade obrigatória. O programa estruturado do US POINTER combinou exercício aeróbico quatro vezes por semana, exercícios de força duas vezes por semana, atividades de flexibilidade e aumento progressivo e acompanhado das metas.

Esse protocolo pertence a um ensaio clínico e não deve ser transformado em prescrição universal. Idade, condicionamento, equilíbrio, doenças cardíacas e limitações articulares precisam ser considerados.

Na prática, o programa mais útil é aquele que reúne segurança, regularidade e progressão possível. Caminhada, bicicleta, hidroginástica, musculação, dança e outras modalidades podem ser utilizadas conforme a condição de cada pessoa.

A combinação de exercício aeróbico e fortalecimento também ajuda a preservar mobilidade, equilíbrio e independência — objetivos importantes mesmo quando não é possível medir diretamente seu efeito sobre o risco futuro de demência.

Fazer palavras cruzadas é suficiente?

Provavelmente não. Estímulo cognitivo não se resume a um jogo ou aplicativo. O cérebro é desafiado por atividades que exigem atenção, planejamento, aprendizado e adaptação, como aprender uma habilidade, estudar outro idioma, tocar um instrumento, ler e discutir assuntos novos, participar de atividades em grupo e utilizar tecnologia.

O efeito parece ser mais coerente quando o estímulo cognitivo faz parte de uma estratégia abrangente, associado a exercício, alimentação, participação social e controle clínico. Não existe evidência de que um aplicativo isolado ou uma atividade repetida impeça a doença de Alzheimer.

Por que controlar a saúde vascular é tão importante?

O cérebro depende de uma rede vascular saudável. Hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol elevado aumentam o risco de AVC, doença de pequenos vasos e comprometimento cognitivo.

Além disso, alterações vasculares e doença de Alzheimer frequentemente coexistem na mesma pessoa. Portanto, controlar fatores cardiovasculares pode reduzir danos adicionais mesmo quando existe predisposição para uma doença neurodegenerativa.

A avaliação pode incluir pressão arterial, glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, peso, investigação de tabagismo, avaliação de arritmias quando indicada e revisão do sono e da possibilidade de apneia. As metas precisam ser individualizadas.

Audição, sono e participação social também importam?

Sim. A preservação cognitiva não depende apenas de exercício e alimentação.

Perda auditiva pode reduzir a qualidade da comunicação, aumentar o isolamento e exigir maior esforço cognitivo para compreender conversas. Avaliação auditiva e uso apropriado de aparelhos, quando indicados, podem melhorar comunicação e participação social.

Distúrbios do sono, especialmente apneia obstrutiva, podem provocar sonolência, dificuldade de atenção e piora da memória. Entretanto, nem toda queixa de memória é causada pelo sono, e nem todo tratamento da apneia reverte sintomas cognitivos.

Depressão, ansiedade, solidão e perda de vínculos também merecem atenção. Atividades sociais significativas podem funcionar ao mesmo tempo como estímulo cognitivo, apoio emocional e incentivo à atividade física.

Quem deve procurar uma avaliação neurológica?

Esquecimentos ocasionais fazem parte da vida, especialmente em períodos de estresse, privação de sono ou sobrecarga. A avaliação se torna mais importante quando existe repetição frequente das mesmas perguntas, dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos, desorientação em lugares conhecidos, mudança de comportamento, dificuldade progressiva para encontrar palavras, queda de desempenho ou perda de autonomia.

Nessas situações, apenas recomendar exercício ou jogos cognitivos pode atrasar o diagnóstico. A investigação procura diferenciar envelhecimento normal, depressão, efeitos de medicamentos, distúrbios do sono, deficiências nutricionais, comprometimento cognitivo leve e diferentes tipos de demência.

É necessário fazer exames genéticos ou biomarcadores para começar a prevenção?

Na maioria das pessoas sem sintomas, não. Os estudos LatAm-FINGERS e US POINTER selecionaram participantes por fatores clínicos, cognitivos e cardiovasculares. Medidas de promoção da saúde não dependem de PET amiloide, punção lombar ou teste genético para serem iniciadas.

Biomarcadores possuem indicações específicas, principalmente na investigação de pessoas com sintomas cognitivos e na avaliação para determinados tratamentos da doença de Alzheimer. Conhecer o genótipo APOE sem aconselhamento adequado pode gerar ansiedade e não determina individualmente quem desenvolverá demência.

O que esses estudos mudam na prática?

Os resultados não criam uma receita única, mas ajudam a substituir recomendações vagas por um plano organizado:

  1. Identificar os fatores modificáveis relevantes para aquela pessoa.
  2. Escolher mudanças possíveis e mensuráveis.
  3. Combinar atividade física, alimentação e estímulo cognitivo.
  4. Acompanhar pressão, diabetes, colesterol, sono, audição e saúde emocional.
  5. Rever periodicamente adesão, segurança e resultados.
  6. Adaptar o plano ao contexto social, cultural e financeiro.

A principal mensagem é que a saúde cognitiva provavelmente responde melhor a um conjunto de medidas sustentadas do que a soluções isoladas.

Qual é a conclusão atual?

As novas evidências fortalecem a importância da prevenção multidomínio. Programas estruturados, combinando atividade física, alimentação, estímulo cognitivo, participação social e controle de fatores cardiovasculares, produziram melhora mensurável em testes cognitivos de adultos mais velhos com risco aumentado.

Ainda não é possível afirmar que esses programas evitem definitivamente a doença de Alzheimer ou qualquer outra demência. Também não existe suplemento, dieta ou aplicativo capaz de oferecer proteção garantida.

O avanço está em demonstrar que um plano acompanhado, adaptado à realidade da pessoa e mantido ao longo do tempo pode ser mais eficaz do que receber apenas recomendações gerais.

Referências

Aviso educativo: Este conteúdo possui finalidade informativa e não substitui avaliação médica, nutricional ou orientação individual para atividade física. Pessoas com sintomas cognitivos, doenças cardiovasculares ou limitações funcionais devem receber avaliação apropriada antes de iniciar mudanças intensivas.