A enxaqueca é uma doença neurológica capaz de causar crises intensas, náuseas, sensibilidade à luz e ao som e importante limitação das atividades. Muitos episódios podem ser tratados em casa seguindo um plano previamente orientado, mas algumas situações exigem avaliação em serviço de emergência.
Uma diretriz recente da American Headache Society atualizou as recomendações para o tratamento de adultos que chegam à emergência com uma crise de enxaqueca e precisam de medicação injetável. O documento reforça que o atendimento não deve ser baseado em um “coquetel” padronizado para todos: é necessário confirmar o diagnóstico, avaliar contraindicações e escolher as opções mais adequadas para cada paciente.
Quando uma dor de cabeça deve ser avaliada na emergência?
Uma crise intensa nem sempre representa uma doença grave. Entretanto, algumas características levantam a possibilidade de uma cefaleia secundária, causada por outra condição que precisa ser investigada rapidamente.
Procure atendimento de emergência diante de:
- Dor súbita que atinge intensidade máxima em segundos ou poucos minutos.
- Fraqueza, alteração da fala, confusão, desmaio ou crise convulsiva.
- Sintomas neurológicos novos ou diferentes das auras habituais.
- Febre associada a rigidez ou dor importante no pescoço.
- Dor iniciada depois de traumatismo craniano.
- Dor nova durante a gestação ou no período após o parto.
- Cefaleia nova em pessoas com câncer ou imunossupressão.
- Dor que muda claramente de padrão ou piora progressivamente.
- Primeira cefaleia importante depois dos 50 anos.
Uma aura de enxaqueca pode produzir alterações visuais, sensitivas ou de linguagem. Contudo, sintomas novos, prolongados ou acompanhados de fraqueza não devem ser automaticamente atribuídos à enxaqueca, pois algumas manifestações podem se confundir com um AVC.
O que mudou no tratamento hospitalar da enxaqueca?
A atualização da American Headache Society analisou 26 ensaios clínicos randomizados envolvendo 20 tratamentos injetáveis utilizados em adultos atendidos na emergência.
Duas abordagens alcançaram o nível mais elevado de recomendação:
- Proclorperazina intravenosa.
- Bloqueio do nervo occipital maior, realizado com anestésico local.
Isso significa que essas opções devem ser consideradas e oferecidas quando forem apropriadas, disponíveis e não houver contraindicações. Não significa que todos os pacientes devam receber necessariamente o mesmo tratamento.
Outras alternativas, como metoclopramida, cetorolaco, sumatriptano subcutâneo e bloqueio do nervo supraorbital, também receberam recomendações favoráveis, porém com níveis diferentes de evidência.
A escolha depende de fatores como tratamentos utilizados antes da chegada à emergência, doenças associadas, risco de efeitos adversos, duração da crise e resposta a intervenções anteriores.
Por que os opioides não são recomendados rotineiramente?
A diretriz recomenda que a hidromorfona intravenosa não seja oferecida rotineiramente no tratamento da enxaqueca na emergência. Estudos comparativos demonstraram resultados inferiores aos de tratamentos específicos e maior risco de consequências indesejáveis.
O uso de opioides também pode estar associado a:
- Menor probabilidade de resolução adequada da crise.
- Necessidade de novos atendimentos.
- Sedação e outros efeitos adversos.
- Uso excessivo de medicação.
- Dependência em pessoas suscetíveis.
Existem circunstâncias excepcionais que exigem julgamento clínico, mas os opioides não devem ser tratados como primeira escolha para uma crise típica de enxaqueca.
A diretriz serve como receita para tratar crises em casa?
Não. Essas recomendações foram elaboradas para adultos atendidos em serviços de emergência e que necessitam de tratamentos parenterais — intravenosos, subcutâneos ou por bloqueios anestésicos.
Elas não substituem o plano de tratamento domiciliar e não devem ser usadas para automedicação. Gestantes, idosos, pessoas com doenças cardiovasculares e pacientes que utilizam diversos medicamentos precisam de avaliação particularmente individualizada.
A própria diretriz reconhece limitações nas evidências para situações como estado de mal migranoso, no qual a crise se prolonga por mais de 72 horas, e enxaqueca refratária.
Como reduzir a necessidade de procurar repetidamente a emergência?
Idas frequentes à emergência podem indicar que o tratamento das crises ou a estratégia preventiva precisam ser revistos.
Um plano ambulatorial pode incluir:
- Identificação correta do tipo de cefaleia.
- Orientação sobre quando iniciar o tratamento da crise.
- Registro da frequência e duração das dores.
- Revisão do uso de analgésicos e outras medicações.
- Definição de uma alternativa caso a primeira opção não funcione.
- Avaliação da necessidade de tratamento preventivo.
- Reconhecimento dos sinais que exigem atendimento urgente.
O objetivo não é apenas aliviar uma crise isolada, mas reduzir seu impacto, evitar o uso excessivo de medicamentos e devolver previsibilidade à rotina do paciente.
O que essa atualização representa na prática?
A principal mensagem é que a crise de enxaqueca atendida na emergência deve receber tratamento baseado em evidências e adaptado ao contexto clínico. A atualização também reforça que opioides não devem ocupar o lugar de terapias mais adequadas e que bloqueios anestésicos podem ser considerados em pacientes selecionados.
Para quem apresenta crises repetidas, incapacitantes ou que frequentemente não respondem ao tratamento em casa, o acompanhamento neurológico permite construir um plano mais seguro para as crises e avaliar a necessidade de prevenção.
Referências
- Robblee J, Minen MT, Friedman BW, et al. Atualização de 2025 da diretriz para tratamento agudo da enxaqueca em adultos na emergência. Headache, 2026.
- American Headache Society. Updated ER Migraine Guidelines Provide Clear Direction for Clinicians. Publicado em 26 de março de 2026.
- American College of Radiology. ACR Appropriateness Criteria — Headache.