A alimentação e o estado nutricional podem influenciar a saúde de forma geral. Por isso, é natural que pessoas com enxaqueca perguntem se vitaminas ou suplementos poderiam reduzir as crises.
Um estudo publicado em 2026 observou que pessoas com enxaqueca crônica apresentavam níveis sanguíneos mais baixos de tiamina, também conhecida como vitamina B1, do que participantes sem enxaqueca. O resultado é interessante, mas não prova que a deficiência cause a doença ou que sua reposição seja um tratamento estabelecido.
O que o estudo encontrou?
A pesquisa avaliou 100 adultos com enxaqueca crônica e 100 controles sem a doença, em um centro neurológico na Índia. Os participantes com enxaqueca apresentaram, em média, níveis menores de tiamina no sangue.
Entre os pacientes com níveis mais baixos, também foram observados maior duração da doença, mais dias de dor por mês, fadiga, tontura, pior qualidade do sono e maior ocorrência de dor abdominal.
Como foi um estudo observacional, ele não permite determinar o que veio primeiro: a deficiência nutricional ou a própria carga da doença. Náuseas, vômitos, redução do apetite e restrições alimentares durante as crises poderiam contribuir para uma menor ingestão de nutrientes.
Um estudo com suplementação mostrou benefício?
Um ensaio clínico publicado em 2024 avaliou 40 mulheres com enxaqueca episódica. Durante 12 semanas, um grupo recebeu altas doses de tiamina e outro recebeu placebo. O estudo relatou redução na frequência, duração, intensidade das crises e no impacto medido pelo questionário MIDAS.
Entretanto, apenas 32 participantes concluíram o protocolo. A amostra foi pequena, incluiu um grupo específico de pacientes e teve acompanhamento curto. Por isso, o resultado é preliminar e precisa ser confirmado por estudos maiores e mais longos.
Isso significa que toda pessoa com enxaqueca deve tomar vitamina B1?
Não. Ainda não está definido qual dose seria adequada, por quanto tempo o suplemento deveria ser usado, quais pacientes poderiam se beneficiar ou se o efeito se mantém após a interrupção.
A dose estudada foi muito superior à quantidade normalmente obtida pela alimentação. Isso não significa que seja apropriada ou segura para uso sem supervisão médica.
Quais cuidados são importantes?
Antes de iniciar qualquer suplemento, é importante considerar alimentação, perda de peso, náuseas e vômitos frequentes, doenças intestinais, problemas de absorção, consumo de álcool, doenças renais ou hepáticas e medicamentos em uso.
A investigação de uma deficiência nutricional deve ser orientada por avaliação clínica. Nem todo resultado laboratorial alterado explica a dor de cabeça, e a reposição indiscriminada pode atrasar o diagnóstico de outros problemas.
O que permanece fundamental no tratamento da enxaqueca?
O tratamento continua baseado na identificação correta do diagnóstico, no manejo das crises e, quando indicado, na prevenção. A consulta pode incluir análise da frequência e das características da dor, sintomas associados, uso de analgésicos, fatores que agravam o quadro e necessidade de tratamento preventivo.
Manter horários regulares para dormir e se alimentar, hidratar-se adequadamente e registrar as crises pode ajudar a reconhecer padrões. Essas medidas não substituem o tratamento, mas contribuem para um acompanhamento mais organizado.
Qual é a mensagem principal?
A vitamina B1 é uma linha de investigação interessante na enxaqueca, mas ainda não pode ser apresentada como tratamento comprovado. O estudo de 2026 mostrou uma associação; o ensaio pequeno de 2024 encontrou possíveis benefícios com altas doses. Esses achados precisam de confirmação antes de mudar a prática clínica.
Até que existam evidências mais consistentes, suplementos não devem substituir tratamentos comprovados nem ser iniciados sem avaliação individualizada.
Referências
- Prakash S, Vadodaria V, Yadav M, Patel SM. Thiamine deficiency in patients with chronic migraine: A case–control study. Headache. 2026;66:1868–1877. DOI: 10.1111/head.70167.
- Ghods M, Togha M, Jafari E, et al. Improving migraine headache characteristics with high dose of thiamine: A randomized double-blind controlled trial. Current Journal of Neurology. 2024;23(4):208–216. DOI: 10.18502/cjn.v23i4.18763.