Vitaminas são essenciais ao organismo, mas tomar quantidades maiores não significa obter mais benefícios. No caso da vitamina B6, o excesso por suplementação pode provocar lesão dos nervos periféricos, chamada neuropatia.
O assunto merece atenção porque essa vitamina pode aparecer em vários produtos utilizados simultaneamente. Uma pessoa pode consumir B6 em um multivitamínico, um complexo B e uma fórmula com magnésio sem perceber a soma.
Isso não significa que todo suplemento seja perigoso. Significa que indicação, quantidade total e duração do uso precisam fazer parte da avaliação.
Por que esse tema voltou a ganhar atenção?
Em uma atualização de segurança publicada em fevereiro de 2026 e revisada em abril, a agência reguladora australiana TGA reforçou a necessidade de investigar o consumo de B6 em pessoas com sintomas de neuropatia.
O documento destaca que o risco é maior com ingestões elevadas, mas não pode ser excluído abaixo de 50 mg por dia. Esse número não deve ser interpretado como uma fronteira universal de segurança.
Em 14 de outubro de 2026, a agência abriu nova consulta pública sobre rotulagem e comunicação dos riscos, incluindo a exposição acumulada por diferentes produtos. São medidas australianas, que não representam automaticamente regras brasileiras.
Quais sintomas podem ocorrer?
Os alertas oficiais descrevem principalmente:
- Formigamento.
- Queimação.
- Dormência, especialmente nas mãos ou nos pés.
A continuidade da exposição pode favorecer a progressão do problema. Entretanto, esses sintomas não identificam sozinhos sua causa: ter formigamento e usar suplementos não confirma intoxicação por B6. É necessário avaliar a relação temporal, os produtos consumidos e outras explicações possíveis.
O que mostrou um estudo recente?
Um estudo publicado em fevereiro de 2025 analisou 224 notificações de neuropatia associadas a suplementos com B6 no sistema de farmacovigilância dos Países Baixos.
Depois de uma restrição regulatória adotada em 2018, os relatos passaram a envolver doses menores. Ainda assim, continuaram chegando notificações relacionadas a produtos com doses mais baixas.
É importante interpretar esse resultado corretamente: notificações espontâneas ajudam a identificar sinais de segurança, mas não demonstram que a vitamina tenha causado todos os casos nem permitem calcular a probabilidade de neuropatia entre todos os usuários. Os próprios pesquisadores destacaram a necessidade de estudar melhor a associação em doses baixas.
Como reconhecer a vitamina B6 no rótulo?
Ela pode aparecer como vitamina B6 ou por nomes como:
- Cloridrato de piridoxina.
- Piridoxal-5-fosfato.
- Piridoxal-5-fosfato monoidratado.
Produtos comercializados principalmente como suplementos de magnésio ou zinco também podem incluir B6. Por isso, revisar apenas o nome da embalagem é insuficiente: é preciso conferir a composição e a porção diária de cada produto.
Um exame de sangue resolve a investigação?
Um resultado isolado não resume toda a avaliação. A análise europeia da EFSA ressalta limitações na interpretação dos níveis sanguíneos, incluindo diferenças no momento da coleta em relação à última dose.
A avaliação precisa relacionar o resultado ao histórico de consumo e aos sintomas. Um valor elevado não mede, sozinho, a intensidade da lesão dos nervos nem prova que explique todas as queixas.
É preciso evitar alimentos com vitamina B6?
Não é essa a mensagem dos alertas. A preocupação está na exposição por suplementos e produtos adicionados de B6, especialmente quando utilizados em conjunto. A vitamina presente naturalmente nos alimentos não está associada ao mesmo problema descrito nesses alertas.
O que levar à consulta?
Para facilitar a revisão, vale reunir embalagens ou fotografias dos rótulos, quantidade consumida por dia, data de início e momento em que os sintomas apareceram.
A principal mensagem é simples: suplementos também precisam entrar na lista de produtos usados pelo paciente. Diante de sintomas novos durante o uso de B6, procure avaliação prontamente e orientação sobre a suspensão do produto suspeito. Não acrescente outras vitaminas para tentar tratar o formigamento por conta própria.
Referências
- Van Hunsel F, Scholl J, Vrolijk M, Ekhart C. Impact of Regulatory Action on Dose Maximalization for Vitamin B6 Dietary Supplements on the Reporting Pattern for Neuropathy. Pharmacoepidemiol Drug Saf. 2025;34(2):e70108. DOI: 10.1002/pds.70108.
- TGA. Medicines containing vitamin B6. Publicado em 19/02/2026; atualizado em 07/04/2026.
- TGA. Peripheral neuropathy with supplementary vitamin B6. Atualizado em 25/02/2026.
- EFSA NDA Panel. Scientific opinion on the tolerable upper intake level for vitamin B6. EFSA Journal. 2023;21(5):8006. DOI: 10.2903/j.efsa.2023.8006.
- TGA. High-moderate risk changes to permissible ingredients — Vitamin B6. Consulta aberta em 14/10/2026.